Albert Camus dizia que o único verdadeiro problema filosófico era o suicídio. Esta afirmação era consequência de uma pergunta. Se aquilo que define a condição humana é a procura de sentido para a vida, o que fazer com o absurdo? Se chegarmos à conclusão de que a vida não tem sentido, de que a única coisa que existe é um absurdo existencial, será que a vida vale a pena ser vivida? A conclusão de Camus é que sim. O que o absurdo exige, não é o suicídio, mas a revolta…
O pensamento ocidental sempre foi muito monista. Isto é, a vida, ou tem sentido, ou é absurda, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo, porque elas são mutualmente exclusivas. É por isso que é necessário responder filosoficamente à hipótese da vida ser absurda, seja essa resposta o suicídio ou a revolta.
O pensamento oriental sempre foi muito mais dualista. A vida não é vista como sendo apenas sentido ou apenas absurdo. A vida é sentido e absurdo. O par complementar absurdo~sentido é visto como um todo. Um não pode existir sem o outro. O conceito de par dual, de conceitos antagónicos, retira toda a necessidade de respondermos filosoficamente ao absurdo. Isto é, o pensamento oriental reconhece que sem o absurdo, não teríamos sentido e o problema existencial desaparece.
No pensamento oriental, todos os aspectos da vida são vistos como pares duais e complementares. Luz~Escuridão. Vida~Morte. Interior~Exterior. Efémero~Eterno. Absurdo~Sentido. Yin~Yang. Esta visão do mundo, vem do reconhecimento que não conseguimos definir algo, sem definir implicitamente o seu contrário. Definimos a luz como ausência de escuridão, ou a escuridão como ausência de luz. É fácil perceber que nenhum destes extremos tem uma existência independente. Um aspecto do par não pode existir sem o outro, porque o par é dual, e complementar.
Quando o fotógrafo regista algo, tem de escolher o que fica no enquadramento. E isso faz com que implicitamente, esteja a definir tudo o que ficou de fora. A “não-fotografia”. O fotógrafo, nessa escolha de um enquadramento particular, está à procura do sentido, daquilo que é relevante, que é belo, que importa registar. Portanto ele está implicitamente a dizer, que tudo o que ficou de fora, não importa, não tem sentido, é absurdo.
Portanto, o processo de registar uma fotografia, é o processo de seleccionar o sentido num mar de absurdo. Como se o sentido fosse o sujeito e o absurdo o fundo. Mas se o par absurdo~sentido é um par dual e complementar, será que podemos implicitamente definir o sentido, se escolhermos fotografar o absurdo? Isto é, se fizermos uma inversão do processo fotográfico, e escolhermos, o que não importa, o feio, o irrelevante, a “não-fotografia”, não estaremos implicitamente a definir o sentido ?
(Esta série, é uma experiência a tentar fotografar o absurdo…)
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