text 1 Mar O Processo Criativo.

Gosto de «sincronicidades»… Coincidência significativas que nos permitem estabelecer ligações entre áreas tão distintas, como a poesia, a biologia e a própria vida. Este «jogo» do Poema Contínuo teve uma dessas «sincronicidades» que me apetece contar.

Fascina-me a ideia do «processo criativo». Foi por isso que comecei esta «experiência» do Poema Contínuo inspirado no titulo de um livro de Herberto Helder. Nele o autor revela, que os vários poemas que ele escreve, são na verdade o mesmo. Um contínuo criativo. Como se criar, em vez de ser visto como um acto isolado no tempo, fosse antes uma expressão de um processo criativo mais fundamental. Cada poema é assim uma gota, que faz parte de um rio, em que o fim nunca está determinado. Uma narrativa aberta em permanente construção.

Esta noção de criação vai contra a ideia corrente. Talvez a frase que melhor representa aquilo que imaginamos ser um acto criativo, é a de Fernando Pessoa, quando ele diz: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce». Como se, antes mesmo de a obra nascer, existisse uma ideia inicial, desejada por Deus e sonhada pelo homem, à qual a obra vai buscar a sua forma. É uma visão um pouco platónica. Como se a ideia, fosse uma luz que projectasse a obra (sombra) na parede da caverna.  A obra, não teria assim uma existência independente, porque seria apenas o reflexo estático de uma ideia mais fundamental. Estático, porque estas ideias são vistas como construções perfeitas, fora do tempo.

Ora, esta noção da criatividade é problemática. Todas as obras são nesta perspectiva reflexo do mundo das ideias, mas não sabemos de onde vêm essas ideias. Dizer que elas vêm de Deus, não explica nada, apenas torna tudo inexplicável. Esta atitude filosófica é conhecida na ciência, por dualismo. Descartes usa o mesmo artifício, para explicar o problema do corpo-mente. O corpo (a obra) é material, e a mente (a ideia) imaterial pertence ao domínio do inexplicável.

Já pouca gente hoje, defende o dualismo na ciência, pela principal razão de que filosoficamente, é um beco sem saída. Porque razão continuar a fazê-lo no domínio da criatividade?

Recentemente acabei um livro chamado «The Third Window» de Robert E. Ulanowicz. O autor procura criar um nova metafísica, para a evolução das espécies, que vá além de Newton e Darwin e que enquadre o processo criativo (ou emergente) do universo em princípios novos e mais frutuosos que os antecessores. Ele termina o livro com 3 postulados para a sua nova metafísica.

I - Um processo é influenciado pelo acaso puro. 
II - Um processo pode influenciar-se a si mesmo. 
III - Um processo é influenciado pela sua história.

A coincidência que eu queria contar, é a seguinte: Se eu tivesse de descrever aquilo que aprendi com este «jogo» do Poema Contínuo, seria:

I - O poema é influenciado pelo acaso puro.
Quando comecei este «jogo» não tinha nenhuma ideia de onde é que ele iria parar. A maior parte das vezes foram acontecimentos fortuitos do meu dia-a-dia, que geravam imagens, que implicavam serem «integradas» no corpo do poema.

II - O poema pode influenciar-se a si próprio.
A própria linguagem, implica que na estrutura das frases, existam regras de sintaxe que obrigam a determinados compromissos.  Existe mais liberdade num poema, mas linguagem força uma estrutura que se influencia a si própria.

III - O poema é influenciado pela sua história.
Apesar de na maior parte, as linhas do poema, serem derivadas de acontecimentos puramente aleatórios, a primeira linha teve mais liberdade que a segunda, e a segunda mais que a terceira, etc. porque cada nova linha, tinha de obedecer a uma coerência histórica. Tinha de ser coerente com aquilo que já tinha sido dito, com um significado emergente. A partir de uma determinada altura o significado «cristalizou» e o poema ficou «fechado».

Portanto a coincidência foi descobrir que uns postulados para o processo criativo universal, serviriam perfeitamente para descrever este «jogo», ou este processo criativo do Poema Contínuo. Esta coincidência é consistente com a ideia de Herberto Helder, que descrevi no post anterior, de que o corpo humano, o corpo do mundo e o corpo da linguagem são uma e a mesma coisa. São todos frutos de um processo de construção de significado.

Mas se olharmos para esta hipótese ao contrário, as implicações ainda são mais interessantes. É como se o processo criativo universal (a evolução emergente das espécies), pudesse ser visto como um processo cognitivo, como defendem Maturana e Varela em «The Tree of Knowledge». E todos os sistemas complexos, (seres vivos, plantas, animais) fossem resultados do processo de construção de significado. Ou por outras palavras, é como se os seres vivos, fossem todos Poemas Contínuos

(nota: Este «jogo» vai continuar, mas de vez em quando vou quebrar o poema, com mini-séries, quando achar que o significado ficou demasiado «fechado» sobre si mesmo.)

  1. o-desassossego posted this

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