Herberto Helder é um poeta maior. A luz que ele emana, vem da sua autenticidade, que por sua vez vem, do desejo de ser sempre um poeta obscuro. Nunca deu entrevistas, nunca quis receber prémios. Foge da luz da ribalta, para não ser queimado pela mesma. Quem procura, como ele, a essência do real, sabe que não pode ceder às contaminações do ego.
Herberto Helder sabe que o corpo humano, o corpo do mundo e o corpo da linguagem são uma e a mesma coisa. Não como metáforas, mas iguais na sua essência, porque são todos frutos do significado. O significado aqui é a pedra base. A verdadeira matéria, da qual a própria matéria é feita. A partícula fundamental.
O «significado» que Herberto Helder procura é o elefante dos filósofos cegos. É a totalidade de uma ordem implícita, inacessível a quem apenas toca numa tromba, numa cauda ou numa pata. É a caixa onde cabe o próprio significado da palavra «significado».
A essência do Poema como forma de expressão, não está no ritmo, na forma, ou na escolha particular de uma palavra, mas sim em como o conjunto captura, destila e inventa o próprio «significado». É a ordem implícita, ou holográfica, como diria Bohm, que permite ao Poema exprimir na sua estrutura uma visão da totalidade.
O verdadeiro dilema do poeta é como se manter autêntico nesse processo de tradução de um corpo universal, em corpo de palavras. A fuga para a obscuridade é uma manifestação implícita desse compromisso. Outra forma, é a imitação da vida através de narrativas abertas, ou contínuas…
Qualquer narrativa fechada, ou previamente determinada, é uma construção artificial, porque limita a liberdade intrínseca que o tempo fornece a qualquer construção. É por isso que uma narrativa de tempo fechado é artificial, enquanto que uma narrativa de tempo aberto é autêntica.
Poderíamos dizer que uma narrativa de tempo aberto ou contínua, é emergente. Porque apesar de manter uma coerência histórica, mantêm em cada palavra, e em cada instante, todas as possibilidades futuras em aberto. A ordem implícita expressa é a manifestação do jogo entre duas forças contraditórias e complementares. A indeterminação fundamental do tempo, e a coerência histórica da sua própria expressão.
O Poema Contínuo é por isso um jogo, entre o tempo, a luz e as palavras, sem fim determinado, (ou um fim aberto) em busca do «significado»…