text 20 May A Arte, como nova Epistemologia

«I believe in God, only I spell it Nature.» - Frank Lloyd Wright

Viver, é algo que todos temos de aprender, mas que ninguém nos pode ensinar. Este velho ditado, remete-nos para uma das características mais singulares da condição humana. A de estarmos condenado a ser eternos diletantes. É impossível aprendermos tudo, porque todos os dias há mais para aprender. E, como o conhecimento está em permanente mutação, coisas que aprendemos no passado, são hoje obsoletas. Outras ganham novas cores, recombinam-se, mudam… É como se viver, fosse deambular pelas salas hexagonais da biblioteca de Babel. Um espaço infinito composto por todas as variações possíveis do conhecimento.

Mas o que é o conhecimento? Como é que o obtemos? Estas perguntas têm persistido nas mentes de filósofos, e cientistas durante séculos. Desde os gregos, passando por Kant, até aos nossos dias cibernéticos, muitas foram as epistemologias que pretenderam responder a estas perguntas. Apesar das respostas serem várias, ninguém duvida de que a Ciência é um poderoso instrumento para obter conhecimento, mas seria mais difícil encontrar alguém que dissesse o mesmo sobre a Arte. A definição mais comum de Arte, é a criação de objectos estéticos, ambientes e experiências que podem ser partilhados com outras pessoas, mas a maior parte delas, não vê isto como conhecimento. 

Ver estes dois domínios, Arte e Ciência, como separados, é uma ilusão histórica bastante recente. Não é preciso recuar muito no tempo, para encontrarmos uma época onde a Arte e a Ciência eram uma e a mesma coisa. Basta pensar em Leonardo da Vinci, para verificar que na Renascença esta distinção simplesmente não existia. Gregory Bateson dizia que se confundires a tua epistemologia, tornas-te um psicótico. Ver como separadas coisas que na verdade são iguais, (Como por exemplo, o Homem e a Natureza), faz com que o Homem destrua a natureza, e por consequência se destrua a si próprio. Por isso não é difícil vermos que a divisão entre Arte e Ciência é também resultado da confusão epistemológica actual.

Costuma-se dizer que ciência, não é um nome, mas um verbo, porque a ciência não é uma estrutura estática de conhecimento, mas sim um processo em permanente movimento. Esse processo, chamado de método científico, é maioritariamente dedutivo. Tudo começa na experiência dos sentidos, depois na formulação de hipóteses para explicar as regularidades das observações, ao qual se segue a dedução de previsões que sustentem essas hipóteses, que depois são testadas e verificadas, para construir «leis naturais». Podemos ver estas «leis naturais»  como a parte indutiva do processo.

Este processo é altamente eficaz, e produziu os enormes avanços no conhecimento, dos últimos séculos. Os sucessos foram tantos, que criou a chamada «ilusão positivista». A ideia de que não há nada que a ciência não possa conhecer, nem há conhecimento válido fora do método cientifico. Ora isto é uma ilusão, por várias razões, mas a principal é porque o método científico tem limites. Existem limites teóricos, naquilo que podemos medirprever, e provar. Estes limites são fundamentais, na medida em que não dependem de avanços tecnológicos, e criam um «horizonte» de conhecimento, para além do qual não conseguimos ir… Tendo isto em conta, há uma pergunta que se impõe: Será que conseguimos alargar esse horizonte de conhecimento, alterando o método pela qual o obtemos? Qual o papel da Arte em tudo isto?

É preciso notar, que a visão do mundo proporcionada pelo conhecimento científico, sofreu uma profunda transformação nas últimas décadas. Podemos dizer que o paradigma que orientava o processo científico, sofreu uma mutação, que criou o espaço para a Arte se afirmar como um método de conhecimento. Isto, porque passámos de uma visão reducionista e materialista, para uma emergentista e criativa.

A visão reducionista do mundo, foi uma herança histórica herdada de Newton, que via o Universo como um relógio. Para conhecer esta máquina só teríamos de conhecer as suas várias partes. A vida era assim vista como sendo, nada mais que biologia, que por sua vez, nada mais era que química, que nada mais era que física, que nada mais era do que colisões da partícula fundamental, que por sua vez… nunca foi encontrada. Para um reducionista, um avião nada mais é do que a soma das suas partes, ignorando o óbvio. Há uma quantidade infinita de formas de organizar essas partes, mas apenas uma que permite voar!

Segundo a visão emergentista, um todo colectivo é sempre mais do que a soma das partes. Este «mais» é informação. Essa informação está contida na organização particular dessas partes, que distingue um avião, de um monte de sucata. O diamante e a grafite são ambos feitos de carbono. Um é transparente e inquebrável, enquanto que o outro é opaco e frágil. Nenhum físico conseguiria olhar para uma única molécula de carbono e deduzir as propriedades do todo colectivo, porque estas propriedades dependem de uma organização particular. Por isso é que um todo colectivo é mais do que a soma das partes, porque possui propriedades que dependem da sua organização particular, e que não podem ser encontradas nas partes individuais. No caso dos seres vivos, a sua organização muda ao longo do tempo, o que significa que, para além da informação da organização, existe a informação da sua dinâmica temporal. Quanto mais complexo, mais informação possui.

Essa nova visão do mundo, revela algo de óbvio. Que o Universo não é uma máquina estática, mas é fundamentalmente criativo. A vida é um processo de autopoiese, que ao organizar-se, cria continuamente novas propriedades. Estas propriedades dependem da história do processo e do acaso, por isso o determinismo é um caso particular, e não a regra. Isto é o mesmo que dizer que o futuro está em aberto e é imprevisível, porque nunca conseguiremos saber quais as propriedades que vão ser efectivamente criadas. Aqui começamos a ver uma relação entre a Arte, e esta nova visão do mundo, porque a Arte, nunca foi reducionista. Não apreciamos uma peça de Mozart, analisando cada uma das notas, ou o retrato de Mona Lisa, analisando os pigmentos de cor da tela, porque toda a obra de arte é um todo colectivo por natureza. Um todo colectivo que privilegia a organização entre partes, para exprimir significado e beleza.

Segundo um positivista, não podemos aprender nada com a Arte, porque o conhecimento é proposicional. O conhecimento deriva da experiência e da razão e é exprimido em factos, na linguagem da matemática ou da lógica. Esta é uma definição empírica e racional, mas bastante limitada. Segundo esta definição saber andar de bicicleta, ou saber tocar um instrumento, não representa conhecimento, porque não existe um conjunto objectivo de factos que o descrevam. É privilegiado o know-that (partes) e ignorado o know-how (todo colectivo). Essencialmente esta definição representa o pensamento reducionista estendido à epistemologia. Assume um mundo objectivo, onde os factos são a «partícula fundamental» do conhecimento, ignorando a organização desse conhecimento em estruturas compostas, colectivas e coerentes.

Felizmente o positivismo não é a única epistemologia possível. É interessante que Kant tenha dito na sua Critica do Julgamento, que o acto estético mais fundamental era a selecção de um facto, porque isso sugere a estética está no centro do conhecimento, e que a objectividade é uma ilusão, ideias que construcionismo defende. O argumento que suporta a ilusão da objectividade é simples. Como os nossos sentidos são limitados, (mesmo com toda a tecnologia e instrumentos de medir), não conseguimos ter acesso à «realidade» mas apenas a uma representação subjectiva da mesma. Uma metáfora para isto seria, um homem colocar uma câmara de video fora da sua casa, ligada à televisão, e depois, olhando para a televisão dissesse que estávamos a olhar para a «realidade». A televisão não é a  «realidade» mas apenas uma representação subjectiva da mesma. Não existe uma objectividade «real». Aquilo que chamamos de objectividade, não é mais do que  subjectividade partilhada com outras pessoas, ou como dizia Howard Bloom, «Reality is a Shared Hallucination»

Portanto, se não conseguimos separar o processo de conhecer, do nosso próprio mundo subjectivo, nem conseguimos separar o know-how, do know-that, podemos ver que a Arte não é realmente uma nova epistemologia, mas apenas uma que esquecemos por causa da nossa confusão positivista. Podemos começar a aperceber-nos que o processo criativo está no centro do processo de conhecer. É verdade que os cientistas como indivíduos são pessoas muito criativas, mas a Ciência como um todo não o é, porque continua a focar-se nas partes em vez do todo, e o resultado é a excessiva fragmentação e especialização da ciência. Defender a Arte como uma nova epistemologia, não é dizer que ela deve substituir aquilo que conhecemos hoje como o método cientifico, mas trazer para o processo de conhecer as qualidade únicas do processo criativo. Estas qualidades são a capacidade de integrar, relacionar, organizar, criar estruturas coerentes de significado, beleza e conhecimento entre vários níveis e domínios, que se possam relacionar, com o nosso mundo subjectivo partilhado.

Humberto Maturana, e Francisco Varela no seu livro «The Tree of Knowledge» partilharam grande parte destas ideias, mas com um significado mais abrangente. Segundo eles, o Universo não é apenas fundamentalmente criativo, mas este processo criativo, é um processo de cognição, de aprendizagem. Existe uma dualidade entre o know-how e o know-that. Quando construímos o nosso mundo subjectivo de know-that, mudamos a forma em como agimos no mundo do know-how. Esta circularidade entre acção e a experiência, é comum a todos os seres vivos, e é por isso que eles dizem que «todo o saber é fazer, e todo o fazer é saber». Este processo de conhecimento não está apenas restrito a mente humana, mas é intrínseco, à própria vida. Isto significa que o processo de conhecimento, o criativo, e o da vida, são uma e a mesma coisa.

Quando olhamos para a bela forma hidrodinâmica de um tubarão, ou para a as penas ultra silenciosas de um mocho, percebemos que estas formas, são conhecimento que a Natureza «cristalizou» em seres vivos adaptados ao seu ambiente. Quando vemos uma paramécia, a nadar num gradiente de glucose, ficamos maravilhados por uma forma de vida tão simples «saber» fazer isso. Este processo de cognição, acelerou com o aparecimento dos seres humanos, e está a explodir nos nossos dias cibernéticos. Portanto aquilo que chamamos de Mente, já não pode ser limitado ao cérebro humano, mas algo que se estende através de circuitos, e relações, fora dos nossos corpos, ligados a uma Mente maior, da qual a mente humana, é apenas um subsistema. A Mente torna-se a própria estrutura evolutiva total. Ou como o Gregory Bateson diria: «This larger Mind is comparable to God and is perhaps what some people mean by “God,” but it is still immanent in the total interconnected social system and planetary ecology»

Esta imagem representa a árvore da vida. É uma obra de arte, que cobre a parede do templo Wat Xieng Thong, em Luang Prabang no Laos. O mito da árvore da vida, é comum a muitas civilizações antigas, e representa a ascensão da terra até ao céu, ou o caminho para Deus. Não é preciso puxar pela imaginação para ver na imagem o conhecimento da evolução, e de que todas as coisas estão ligadas, com os seus vários ramos e a ascensão da complexidade das formas, séculos antes de Darwin. É uma estrutura que se diversifica, mas ao mesmo tempo se mantêm coerente. Os kabalistas achavam que sim, e usaram o mito da árvore da vida para um modelo da criação, e não é coincidência que a árvore da qual Adão comeu o fruto proibido, era a árvore do conhecimento do bem e do mal… Ao continuarmos a deambular pela biblioteca de Babel, encontraremos um dia as palavras de Borges. «a tarefa da arte é a de transformar aquilo que nos acontece, transformar tudo em símbolos, em música, em algo que fique na memória»

(tenho o prazer de dizer que a partir de hoje, comecei a colaborar com o spacecollective. Este post pode ser encontrado em inglês aqui.)

text 15 Mar O absurdo ou a falta dele…

Nesta série tentei fotografar o “absurdo”. O objectivo era fazer uma inversão do processo fotográfico. Fazer um fotografia “absurda” serviria para revelar o sentido de forma implícita, apoiado na ideia de que o par absurdo~sentido é dual e complementar..

O problema é que a experiência estava condenada ao fracasso, por uma pequena subtileza… O sentido (ou significado) de uma fotografia, não está no equilíbrio de cores, formas e tema que foi registado, mas na relação que se estabelece entre a fotografia e a pessoa que a observa. Isto é, o sentido (ou absurdo) de uma fotografia não é totalmente objectivo, porque também depende da subjectividade do observador.

O valor do par sentido~absurdo depende portanto do valor do par objectivo~subjectivo. Assim, de nada vale eu tentar fazer uma fotografia absurda, porque aquilo que é uma foto absurda para mim, pode não o ser para outra pessoa. A única coisa que eu consigo controlar no processo fotográfico é a fotografia, não a forma em como as pessoas se relacionam com ela…

text 9 Mar O Absurdo

Albert Camus dizia que o único verdadeiro problema filosófico era o suicídio. Esta afirmação era consequência de uma pergunta. Se aquilo que define a condição humana é a procura de sentido para a vida, o que fazer com o absurdo? Se chegarmos à conclusão de que a vida não tem sentido, de que a única coisa que existe é um absurdo existencial, será que a vida vale a pena ser vivida? A conclusão de Camus é que sim. O que o absurdo exige, não é o suicídio, mas a revolta…

O pensamento ocidental sempre foi muito monista. Isto é, a vida, ou tem sentido, ou é absurda, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo, porque elas são mutualmente exclusivas. É por isso que é necessário responder filosoficamente à hipótese da vida ser absurda, seja essa resposta o suicídio ou a revolta.

O pensamento oriental sempre foi muito mais dualista. A vida não é vista como sendo apenas sentido ou apenas absurdo. A vida é sentido e absurdo. O par complementar absurdo~sentido é visto como um todo. Um não pode existir sem o outro. O conceito de par dual, de conceitos antagónicos, retira toda a necessidade de respondermos filosoficamente ao absurdo. Isto é, o pensamento oriental reconhece que sem o absurdo, não teríamos sentido e o problema existencial desaparece.

No pensamento oriental, todos os aspectos da vida são vistos como pares duais e complementares. Luz~Escuridão. Vida~Morte. Interior~Exterior. Efémero~Eterno. Absurdo~Sentido. Yin~Yang. Esta visão do mundo, vem do reconhecimento que não conseguimos definir algo, sem definir implicitamente o seu contrário.  Definimos a luz como ausência de escuridão, ou a escuridão como ausência de luz. É fácil perceber que nenhum destes extremos tem uma existência independente. Um aspecto do par não pode existir sem o outro, porque o par é dual, e complementar.

Quando o fotógrafo regista algo, tem de escolher o que fica no enquadramento. E isso faz com que implicitamente, esteja a definir tudo o que ficou de fora. A “não-fotografia”. O fotógrafo, nessa escolha de um enquadramento particular, está à procura do sentido, daquilo que é relevante, que é belo, que importa registar. Portanto ele está implicitamente a dizer, que tudo o que ficou de fora, não importa, não tem sentido, é absurdo.

Portanto, o processo de registar uma fotografia, é o processo de seleccionar o sentido num mar de absurdo. Como se o sentido fosse o sujeito e o absurdo o fundo. Mas se o par absurdo~sentido é um par dual e complementar, será que podemos implicitamente definir o sentido, se escolhermos fotografar o absurdo? Isto é, se fizermos uma inversão do processo fotográfico, e escolhermos, o que não importa, o feio, o irrelevante, a “não-fotografia”, não estaremos implicitamente a definir o sentido ?

(Esta série, é uma experiência a tentar fotografar o absurdo…)

text 1 Mar O Processo Criativo.

Gosto de «sincronicidades»… Coincidência significativas que nos permitem estabelecer ligações entre áreas tão distintas, como a poesia, a biologia e a própria vida. Este «jogo» do Poema Contínuo teve uma dessas «sincronicidades» que me apetece contar.

Fascina-me a ideia do «processo criativo». Foi por isso que comecei esta «experiência» do Poema Contínuo inspirado no titulo de um livro de Herberto Helder. Nele o autor revela, que os vários poemas que ele escreve, são na verdade o mesmo. Um contínuo criativo. Como se criar, em vez de ser visto como um acto isolado no tempo, fosse antes uma expressão de um processo criativo mais fundamental. Cada poema é assim uma gota, que faz parte de um rio, em que o fim nunca está determinado. Uma narrativa aberta em permanente construção.

Esta noção de criação vai contra a ideia corrente. Talvez a frase que melhor representa aquilo que imaginamos ser um acto criativo, é a de Fernando Pessoa, quando ele diz: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce». Como se, antes mesmo de a obra nascer, existisse uma ideia inicial, desejada por Deus e sonhada pelo homem, à qual a obra vai buscar a sua forma. É uma visão um pouco platónica. Como se a ideia, fosse uma luz que projectasse a obra (sombra) na parede da caverna.  A obra, não teria assim uma existência independente, porque seria apenas o reflexo estático de uma ideia mais fundamental. Estático, porque estas ideias são vistas como construções perfeitas, fora do tempo.

Ora, esta noção da criatividade é problemática. Todas as obras são nesta perspectiva reflexo do mundo das ideias, mas não sabemos de onde vêm essas ideias. Dizer que elas vêm de Deus, não explica nada, apenas torna tudo inexplicável. Esta atitude filosófica é conhecida na ciência, por dualismo. Descartes usa o mesmo artifício, para explicar o problema do corpo-mente. O corpo (a obra) é material, e a mente (a ideia) imaterial pertence ao domínio do inexplicável.

Já pouca gente hoje, defende o dualismo na ciência, pela principal razão de que filosoficamente, é um beco sem saída. Porque razão continuar a fazê-lo no domínio da criatividade?

Recentemente acabei um livro chamado «The Third Window» de Robert E. Ulanowicz. O autor procura criar um nova metafísica, para a evolução das espécies, que vá além de Newton e Darwin e que enquadre o processo criativo (ou emergente) do universo em princípios novos e mais frutuosos que os antecessores. Ele termina o livro com 3 postulados para a sua nova metafísica.

I - Um processo é influenciado pelo acaso puro. 
II - Um processo pode influenciar-se a si mesmo. 
III - Um processo é influenciado pela sua história.

A coincidência que eu queria contar, é a seguinte: Se eu tivesse de descrever aquilo que aprendi com este «jogo» do Poema Contínuo, seria:

I - O poema é influenciado pelo acaso puro.
Quando comecei este «jogo» não tinha nenhuma ideia de onde é que ele iria parar. A maior parte das vezes foram acontecimentos fortuitos do meu dia-a-dia, que geravam imagens, que implicavam serem «integradas» no corpo do poema.

II - O poema pode influenciar-se a si próprio.
A própria linguagem, implica que na estrutura das frases, existam regras de sintaxe que obrigam a determinados compromissos.  Existe mais liberdade num poema, mas linguagem força uma estrutura que se influencia a si própria.

III - O poema é influenciado pela sua história.
Apesar de na maior parte, as linhas do poema, serem derivadas de acontecimentos puramente aleatórios, a primeira linha teve mais liberdade que a segunda, e a segunda mais que a terceira, etc. porque cada nova linha, tinha de obedecer a uma coerência histórica. Tinha de ser coerente com aquilo que já tinha sido dito, com um significado emergente. A partir de uma determinada altura o significado «cristalizou» e o poema ficou «fechado».

Portanto a coincidência foi descobrir que uns postulados para o processo criativo universal, serviriam perfeitamente para descrever este «jogo», ou este processo criativo do Poema Contínuo. Esta coincidência é consistente com a ideia de Herberto Helder, que descrevi no post anterior, de que o corpo humano, o corpo do mundo e o corpo da linguagem são uma e a mesma coisa. São todos frutos de um processo de construção de significado.

Mas se olharmos para esta hipótese ao contrário, as implicações ainda são mais interessantes. É como se o processo criativo universal (a evolução emergente das espécies), pudesse ser visto como um processo cognitivo, como defendem Maturana e Varela em «The Tree of Knowledge». E todos os sistemas complexos, (seres vivos, plantas, animais) fossem resultados do processo de construção de significado. Ou por outras palavras, é como se os seres vivos, fossem todos Poemas Contínuos

(nota: Este «jogo» vai continuar, mas de vez em quando vou quebrar o poema, com mini-séries, quando achar que o significado ficou demasiado «fechado» sobre si mesmo.)

text 15 Feb O Poema Contínuo…

Herberto Helder é um poeta maior. A luz que ele emana, vem da sua autenticidade, que por sua vez vem, do desejo de ser sempre um poeta obscuro. Nunca deu entrevistas, nunca quis receber prémios. Foge da luz da ribalta, para não ser queimado pela mesma.  Quem procura, como ele, a essência do real, sabe que não pode ceder às contaminações do ego.

Herberto Helder sabe que o corpo humano, o corpo do mundo e o corpo da linguagem são uma e a mesma coisa. Não como metáforas, mas iguais na sua essência, porque são todos frutos do significado. O significado aqui é a pedra base. A verdadeira matéria, da qual a própria matéria é feita. A partícula fundamental.

O «significado» que Herberto Helder procura é o elefante dos filósofos cegos. É a totalidade de uma ordem implícita, inacessível a quem apenas toca numa tromba, numa cauda ou numa pata. É a caixa onde cabe o próprio significado da palavra «significado».

A essência do Poema como forma de expressão, não está no ritmo, na forma, ou na escolha particular de uma palavra, mas sim em como o conjunto captura, destila e inventa o próprio «significado». É a ordem implícita, ou holográfica, como diria Bohm, que permite ao Poema exprimir na sua estrutura uma visão da totalidade.

O verdadeiro dilema do poeta é como se manter autêntico nesse processo de tradução de um corpo universal, em corpo de palavras. A fuga para a obscuridade é uma manifestação implícita desse compromisso. Outra forma, é a imitação da vida através de narrativas abertas, ou contínuas…

Qualquer narrativa fechada, ou previamente determinada, é uma construção artificial, porque limita a liberdade intrínseca que o tempo fornece a qualquer construção. É por isso que uma narrativa de tempo fechado é artificial, enquanto que uma narrativa de tempo aberto é autêntica.

Poderíamos dizer que uma narrativa de tempo aberto ou contínua, é emergente. Porque apesar de manter uma coerência histórica, mantêm em cada palavra, e em cada instante, todas as possibilidades futuras em aberto. A ordem implícita expressa é a manifestação do jogo entre duas forças contraditórias e complementares. A indeterminação fundamental do tempo, e a coerência histórica da sua própria expressão.

O Poema Contínuo é por isso um jogo, entre o tempo, a luz e as palavras, sem fim determinado, (ou um fim aberto) em busca do «significado»…

text 5 Feb Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno. 
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A Alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos ceús
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Fernando Pessoa

[Lisboa, 1888-1935]

text 1 Feb O Silêncio Branco

Alguém dizia que o tempo é a forma que Deus encontrou, para não nos acontecer tudo de uma só vez. Talvez esta seja a melhor definição de tempo que já ouvi, porque sugere, que o tempo, é uma diferença. É um antes, um agora e um depois. E quando estas diferenças se relacionam de alguma forma, temos uma história, ou como os académicos lhe gostam de chamam, uma narrativa.

Uma narrativa é portanto o tempo, todo certinho, como quem conta, 1, 2, 3, 4. Se por acaso, eu não soubesse contar, ou o fizesse de forma absurda, 4, 5, 1, tinha na mesma um tempo, mas sem história. Seria um  tempo absurdo.

As narrativas, são usadas principalmente na literatura, ou no cinema, mas os músicos também gostam delas. As sinfonias de Beethoven, com os seus movimentos, são discursos sonoros, narrativas musicais. De certa forma é natural. Os psicólogos, já descobriram há muito tempo, que o cérebro humano, pensa através de histórias, talvez fruto dos serões à volta da fogueira, onde se contaram histórias, durante milénios.

As narrativas não são só vantagens. Não podemos entrar a meio de um filme, ou começar um livro a meio, porque todas as histórias, possuem principio, meio e fim. Todas as narrativas por serem espaços ordenados de tempo, têm de existir dentro dele.

Mas, e se eliminarmos o tempo? Brian Eno, é um músico experimentalista. Imaginou o que seria produzir sons, sem tempo, nem história. Então inventou a música ambiente. A ideia era criar musica que estivesse fora do tempo. Onde o passado, o presente e o futuro se confundem, criando um eterno presente. Entramos num espaço e ouvimos música. A música não é dinâmica, mas possui um padrão que se repete indefinidamente. É uma música estática, como uma escultura sonora.

O “Imagem por dia” sempre foi concebido como um diário, uma narrativa pessoal. Mas cedo percebi, que para quem não me conhece intimamente, essa narrativa, possuía as características de um tempo absurdo, desconexo. Por isso pensei durante um tempo criar uma narrativa mais formal. Os elementos estéticos para a diferenciar do resto, foram uma personagem (Mr Panda), o preto e branco e o francês. Uma história onde a única certeza era o seu fim.

Agora pretendo fazer o oposto. Uma série onde os elementos de tempo se diluem, num eterno presente. Uma escultura estática em imagens, onde o princípio e o fim se diluem. Um grande silêncio branco…

text 29 Jan Ortónimo e Heterónimos

Nos últimos meses tenho andado numa verdadeira explosão de heterónimos. Chamo heterónimos aos vários blogs que tenho vindo a criar. Cada um deste blogs tem o seu propósito, e a sua razão de ser, mas ultimamente tenho sentido que a multiplicidade destas facetas criativas, tem uma desvantagem, dilui a minha identidade.

Por isso chego ao seguinte paradoxo: Quero voltar a unificar aquilo que é múltiplo. Como ? Criando mais um blog…

Este blog é assim o autor de todos os outros. O Ortónimo. Pretende ser mais pessoal, mais intimista, mais filosófico, mas também apenas mais um. É o meu livro do desassossego, onde eu me permito divagar, numa metafísica pessoal, completamente às escuras…

Os meus heterónimos (públicos) são quatro:

Uma imagem por dia…

Tenho esta convicção de que qualquer acto criativo é para ser partilhado, mesmo que seja para ser ignorado. Algo que não é partilhado, morre antes de nascer. As fotos tiradas com o telemóvel, jaziam dentro do disco, inertes. Dava pena ver…

Mas qualquer processo criativo, tem de ter ritmo. É uma corrida de fundo, onde a persistência faz a perfeição. Nada acontece a menos que se dê um passo. A acção acorda a possibilidade, inicia o processo de causa - efeito. O objectivo era uma narrativa pessoal. O compromisso mínimo foi uma imagem por dia…

Karmaleão

Sou um escravo do karma. Acções, em cima de acções, para corrigir erros cometidos, por ter sido um erro agir. Sou uma gota de água a lutar dentro de um rio. A tentar permanecer na impermanência. Quando penso que sei o que é “ser”, o camaleão muda de cor. Cada vez que penso que aprendi algo, escrevo. Cada vez escrevo menos, o que significa que cada vez estou menos vivo.

Morphosemiosis

Sempre fui muito crítico das divisões artificiais que o mundo moderno cria, na ânsia de classificar e categorizar a realidade. Positivismo absurdo. Arte e a Ciência, como se fossem duas coisas diferentes, de domínios distintos. Há menos de 500 anos, Leonardo Davinci não pensava assim. Neste blog, uso a ciência como inspiração para criar pequenos objectos artísticos de software livre que podem ser descarregados e modificados por qualquer pessoa.

Light Stream

É mais um jogo do que uma personalidade completa. Sou uma pessoa muito visual. Gosto de fotografia, penso por imagens e há imagens que me inspiram. Uso este blog, para criar padrões e narrativas com imagens descobertas aleatoriamente. Por exemplo, nesta página a Winona Ryder pergunta se já confundimos um sonho com a vida. O Paul McCartney pensa seriamente nisso, e um desconhecido responde aquilo que sobra quando nos damos conta que a vida deixou de ser o sonho…


Design crafted by Prashanth Kamalakanthan. Content powered by Tumblr.